Hoje finalmente, mesmo que por um pequeno período de tempo, achei uma razão de viver, uma legitima motivação para continuar minha vida. Durante alguns minutos, todos os meus problemas existenciais, ou pelo menos alguns deles perderam importância para eu me focar na dor que um coturno pode causar após algumas horas de caminhada. Durante essas horas criei o ideal romântico de chegar a minha casa e ficar descalço. Porra, como essa merda dói, nessas horas só pensava em tirar as botas, e culpava deus e o diabo por me fazerem ter que andar a pé, que vida de cão.
No caminho fiquei pensando na minha conversa do escritório, como uma pessoa que não faz nada além de comer, trabalhar, cagar e dormir pode ser feliz? Mal remunerados casados com a mesma mulher gorda há anos, comendo a mesma ração diariamente, mas felizes, pois podem tomar sua maldita cerveja no final de semana, e eu aqui com toda essa infelicidade livresca no meu coração.
Mas sempre esquecia desse papo todo e pensava em tirar minhas botas, e pensava, tenho que comprar um veículo, isso de andar não é vida. De vez enquando a dor abrandava e eu voltava a pensar nas pessoas felizes. Numa ruela escura, com nome de travessa sei-lá das quantas havia uma velha pendurando centenas de luzes de natal na sacada, como alguém pode pensar em decoração de natal com tanta merda por aí? Se existe gente que se satisfaz enchendo de penduricalhos a varanda, pode ter mesmo gente feliz nesse mundo.
Chegando em casa vi um monte dessas pessoas felizes num trailer tomando cerveja, todos bem feios, e obviamente suados de um dia de trabalho, mas aparentemente felizes, só sei que entrei em casa, comi um bom pedaço de pudim, e dormi, de botas.
Ah, esse eu gostei. Adorei mesmo.
ResponderExcluirE existem sim , pessoas felizes. Mesmo que a nosso ver, a vida delas seja uma merda. A felicidade é um corredr infinito cheio de portas. Cada um tem uma chave.
Bjo!
no final a gente sempre dorme de botas.
ResponderExcluirJana
add o novo.
ResponderExcluirhttp://janarubber.blogspot.com/
O pior é ter leitores indesejáveis
ResponderExcluirNão sei se vc já leu o Machado abaixo, se nao, leia..
ResponderExcluirEntrei aqui por acaso. Continuei pelo texto. Parabéns..
“Uma vez aliviado, respirei à larga, e deitei-me a fio comprido, enquanto os pés, e todo eu atrás deles, entrávamos numa relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Enquanto esta idéia me trabalhava no faoso trapézio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do pretérito, e sentia que o meu coração não tardaria também a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rápido, inefável e incoercível momento de gozo, que sucede a uma dor pungente, a uma preocupação, a um incômodo… Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.”
[Machado de Assis] – Memórias Póstumas de Brás Cubas